Há um erro que vejo repetir-se ano após ano nas monografias que oriento: o estudante escreve páginas e páginas sobre o tema, mas nunca formula um problema de pesquisa de facto. Escreve sobre "a importância da educação" ou "os desafios do desenvolvimento em Moçambique" e isso não é um problema, é um assunto. A diferença pode parecer subtil, mas é ela que separa um trabalho científico de um ensaio de opinião.

Neste artigo vemos exactamente o que é um problema de pesquisa, como distingui-lo de um tema, e mais importante como formulá-lo de forma que oriente toda a sua investigação.

Veja Referencial Teórico: O Que É, Como Fazer e Exemplos Práticos para a Sua Monografia

O que é, afinal, um problema de pesquisa

Um problema de pesquisa é uma questão específica, delimitada e investigável, que nasce de uma lacuna no conhecimento existente ou de uma contradição na realidade observada. Gil (2002) define-o como "qualquer questão não resolvida que é objecto de discussão, em qualquer domínio do conhecimento."

Repare bem nisto: a palavra-chave é investigável. Um problema precisa de resposta possível através de dados, observação ou análise não apenas de reflexão filosófica.

Veja a diferença na prática:

Tema (não é problema) Problema de pesquisa A qualidade do ensino superior em Moçambique Quais os factores que contribuem para a elevada taxa de reprovação no 1.º ano das universidades públicas de Maputo? O uso das redes sociais pelos jovens De que forma o uso do Facebook afecta o rendimento académico dos estudantes do ensino superior em Nampula? Gestão de recursos humanos nas empresas Qual o impacto da rotatividade de pessoal sobre a produtividade das PMEs do sector de construção civil em Maputo? A diferença não está no tamanho da frase está na especificidade e na orientação para uma resposta concreta.

Os três critérios que um bom problema deve cumprir

Marconi e Lakatos (2003) identificam características essenciais do problema científico. Na minha experiência como professor, reduzo-as a três critérios práticos que qualquer estudante pode verificar antes de avançar:

1. É formulado como pergunta? O problema deve ser expresso como questão com ponto de interrogação. Quando o estudante escreve "O presente trabalho estuda o impacto da corrupção...", isso é um objectivo, não um problema. A pergunta obriga a precisão: quem, onde, quando, quanto, como, por quê.

2. É delimitado no tempo, espaço e população? "Como melhorar a saúde em África" é uma pergunta impossível de responder numa dissertação de mestrado. O problema precisa de fronteiras realistas. "Quais as barreiras de acesso aos cuidados de saúde materno-infantil nas zonas periurbanas de Quelimane entre 2020 e 2023?" isso já é investigável.

3. Tem relevância e viabilidade? A pergunta deve justificar-se: existe uma lacuna real no conhecimento? E o estudante tem condições tempo, acesso a dados, recursos para a responder? Um problema pode ser perfeitamente formulado e completamente inviável de investigar.

Como formular o problema passo a passo

O processo não começa numa folha em branco. Começa na leitura.

Passo 1 — Leia o que já existe sobre o tema Antes de formular qualquer coisa, faça uma revisão inicial da literatura. Não precisa ser exaustiva nesta fase basta identificar o que se sabe, o que está em debate e onde estão as lacunas. É nas lacunas que nascem os bons problemas.

Passo 2 — Identifique a contradição ou a ausência Pergunte-se: o que ainda não se sabe? O que a literatura sugere mas não confirma? O que funciona noutros contextos mas nunca foi testado em Moçambique? Esta pergunta é o embrião do problema.

Passo 3 — Transforme a observação numa pergunta Muitos estudantes têm a intuição certa, mas expressam-na de forma vaga: "há pouca investigação sobre..." Transforme isso numa pergunta directa. Use verbos como identificar, analisar, avaliar, verificar, descrever, comparar.

Passo 4 — Teste a pergunta nos três critérios Volte aos critérios acima. Se a pergunta não passa nos três, afine. Normalmente, o problema ou é demasiado amplo (falta delimitação) ou demasiado vago (não está formulado como pergunta clara).

O erro mais comum e como evitá-lo

Na orientação de TCCs e dissertações, o problema mais frequente que encontro é a confusão entre problema de pesquisa e problema social. O estudante preocupa-se genuinamente com a pobreza, a falta de infraestruturas ou a corrupção e isso é legítimo. Mas um problema social não é automaticamente um problema de pesquisa.

A questão "Como eliminar a corrupção em Moçambique?" é um problema social enorme e urgente. Não é um problema de pesquisa é um programa de governo. O problema de pesquisa seria algo como: "Quais os mecanismos de controlo interno que reduzem a incidência de desvios de fundos nos municípios moçambicanos com menos de 50.000 habitantes?"

A diferença não diminui a importância do tema. Pelo contrário torna a investigação mais útil, porque produz respostas concretas e aplicáveis.

Problema, objectivos e hipóteses: a relação entre os três

O problema de pesquisa não vive isolado. Ele é o motor de toda a estrutura metodológica.

O objectivo geral é a resposta pretendida ao problema, enunciada como intenção: "Analisar os factores que..." O objectivo específico decompõe esse caminho em etapas menores. A hipótese (quando a abordagem é quantitativa ou mista) é uma resposta provisória ao problema, que a pesquisa vai confirmar ou refutar.

Creswell (2014) é claro quanto a isto: nas pesquisas qualitativas, o problema orienta questões de pesquisa; nas quantitativas, orienta hipóteses. Conhecer essa distinção poupa ao estudante muita confusão na hora de defender o trabalho.


Uma nota final sobre a escrita do problema

Depois de formular a pergunta, o estudante tem de contextualizar o problema normalmente num parágrafo ou dois que antecedem a questão central. Essa contextualização explica por que razão o problema existe, qual a sua relevância, e o que motivou a investigação.

Não confunda contextualização com introdução longa e genérica. Dois parágrafos bem escritos valem mais do que duas páginas de lugar-comum. E a pergunta em si o problema formulado deve aparecer de forma explícita, geralmente no final da introdução ou numa secção própria intitulada "Problema de Pesquisa."

Se o seu orientador lê a introdução e não consegue identificar claramente qual é o problema, a pergunta ainda não está formulada. Simples assim.